domingo, 15 de novembro de 2015

ASPECTOS SOCIOCULTURAIS, LINGUÍSTICOS E METODOLÓGICOS QUE INFLUENCIAM NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM DAS PESSOAS SURDAS NA CIDADE DE VALENÇA-BA

IGOR ROSÁRIO SANTOS

Graduado em Letras  Vernácula; Pós Graduado em Estudos Linguísticos e Literários; Pedagogia Inclusiva e Libras; Metodologia do Ensino Superior.




ASPECTOS SOCIOCULTURAIS, LINGUÍSTICOS E  METODOLÓGICOS QUE INFLUENCIAM NO PROCESSO  DE ENSINO E APRENDIZAGEM DAS PESSOAS SURDAS NA CIDADE DE VALENÇA-BA 




RESUMO 

Este artigo aborda sobre os aspectos socioculturais, linguísticos e metodológicos que influenciam no processo de ensino e aprendizagem de pessoas surdas na cidade de Valença-BA. Estas temáticas correspondem à essência da educação de surdos nesta localidade. Descreve e analisa os procedimentos metodológicos dos profissionais da educação, bem como, mostra a visão do surdo quanto à escola e esclarece sobre o papel do Intérprete Educacional de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Além disso, leva o leitor a fazer uma análise a esse respeito e ao professor a repensar o seu modo de educar um aluno surdo. 

PALAVRAS INICIAIS

A cidade de Valença - BA vem recebendo um grande número de alunos com deficiência, principalmente com surdez. A maior contribuição para que isso ocorresse foi à descentralização desse público das instituições especializadas. Com a política de inclusão as escolas passaram a receber esses alunos sem nenhum preparo ou algum tipo de formação para os profissionais que iriam lidar direta e indiretamente com esses alunos, contribuindo para um processo inclusivo desordenado, tortuoso e amador, fazendo das pessoas com deficiência cobaias no processo de inclusão.
Este artigo visa dar uma contribuição e proporcionar uma reflexão sobre o processo de inclusão de pessoas surdas. Numa tentativa de auxiliar os professores quanto a sua prática em sala de aula para alunos surdos, levando em consideração os aspectos socioculturais, linguísticos e pedagógicos. 
Assim, faz-se necessário levantar alguns questionamentos a esse respeito: Quais as adaptações didático-pedagógicas que os profissionais da educação estão fazendo para atender as necessidades educativas do aluno surdo? Quais as dificuldades que o aluno surdo enfrenta no contexto educacional? Qual o papel, bem como, a importância do intérprete educacional? Qual a importância de conhecer os aspectos socioculturais do aluno surdo?
Com base nestas inquietações, objetiva-se neste artigo investigar quais as dificuldades enfrentadas no ambiente escolar por alunos surdos e professores, a fim de proporcionar uma reflexão a respeito, comentar sobre a relevância e o papel do intérprete educacional, analisar o processo metodológico utilizada pelos profissionais da educação que lidam com pessoas surdas diariamente.
Essa pesquisa tem sua importância por abordar uma temática que esta em pauta nas diversas instituições de ensino de diferentes níveis. A modalidade da educação inclusiva para surdos, trás muitos desafios. Este material trás uma contribuição sobre a temática, por abordá-la trazendo á toma elementos de fora do contexto escolar, mas que são relevantes para a educação de surdos, como por exemplo: levar em consideração os aspectos socioculturais. Pois, essa área influencia direta e indiretamente no ensino e aprendizagem das pessoas com deficiência auditiva, tornando-se necessário chegar ao conhecimento dos profissionais da educação, para promover uma reflexão sobre a sua prática docente, tendo como público pessoas com deficiência auditiva.
Este artigo terá como referenciais teóricos autores que estudam na área como Rosita Edler Carvalho (2000), Eulália Fernandes (2008), Emílio Figueiredo (2011), Ronice Muller de Quadros (2007), Sílvia Andreis (2012), dentre outros que estão envolvidos com os aspectos da educação inclusiva, assim como a educação de surdos, sejam eles já conhecidos no cenário nacional ou não. Mas que possuem sua relevância para o enriquecimento do trabalho.
           Por fim, foi utilizada como base metodológica a pesquisa exploratória através de questionários. Pesquisa bibliográfica, utilizando também as análises dos questionários, a fim de procurar responder as perguntas norteadoras. Vale ressaltar que esse artigo dará continuidade ao trabalho realizado anteriormente no curso de graduação sob o título de “O ingresso das pessoas surdas no ensino regular de Valença: pontos e contrapontos na aquisição do português escrito e da língua brasileira de sinais” realizada por este mesmo autor.
 
ASPECTO SOCIOCULTURAL DA COMUNIDADE SURDA VALENCIANA

Quando as pesquisas e observações sobre os aspectos socioculturais da comunidade surda valenciana foram iniciados, percebeu-se que os mesmos não conheciam teoricamente a esse respeito. Apesar de na prática vivenciarem a sua cultura todos os dias, com encontros, trocas de experiências, criando sinais para auxiliar sua necessidade comunicativa e outros.
Conforme afirma Cláudio Mourão "as comunidades surdas manifestam traços de sua cultura no território local, onde habitam ou se encontram os surdos, no convívio dos sujeitos surdos e através de processos sociais e discursivos da cultura surda" (p.45, 2011). Mesmo sem esse conhecimento teórico, instintivamente procuram grupos que compartilham dos mesmos interesses comunicativos e sociais, que utilizam a mesma língua e que há uma identificação, auxiliando assim, na construção da cultura e da identidade surda.
Dessa forma, esse agrupamento simboliza também uma proteção contra as manifestações e atitudes preconceituosas da sociedade majoritariamente ouvinte (que ouve), onde na maioria das vezes, seus familiares e amigos não conhecem a língua de sinais, estabelecendo uma comunicação mínima entre estes, tentando lhes adequar nos padrões estabelecidos como normalidade.
“Os sujeitos surdos são vistos, ás vezes, pelos sujeitos ouvintes, quando não com curiosidade, como pessoas defeituosas, doentes, incapazes, que necessitam de tratamento clínico para se adequarem nos padrões de normalidade. Aliado ao tratamento, é necessário que os surdos adquiram a cultura dos ouvintes, pois, para alguns, surdos não são seres aculturados” (NOVAES, 2010, p. 57)

Nesta perspectiva, essa proteção contra as investidas de coerção dos ouvintes, onde a cultura da maioria tenta sufocar a da minoria, ridicularizando-os, minimizando-os e excluindo-os. Baseando-se num discurso de que eles são assim por faltar um dos cinco sentidos do ser humano, e por isso são dignos de dó, desacreditando de sua potencialidade. 
Essa ideologia tem origem pelo histórico da pessoa com deficiência, as quais sempre foram estigmatizados e humilhados, e essa mentalidade ainda reflete atualmente, pois está internalizados nestes indivíduos. Mas, na prática, na cidade de Valença não há nenhuma manifestação voltada ou idealizada para a comunidade surda visando combater esses pensamentos preconceituosos, ficando a mercê essa questão cultural e consequentemente social.
Assim, há:
"(..) um esforço unilateral (dos surdos) para interagir com os ouvintes e esses, por não se esforçarem, por discriminarem os surdos, dão visibilidade à segregação e permitem a 'constituição' de um grupo diferente que acredita ter também uma cultura diferente". (SANTANA, p. 48, 2007)

            Não há um interesse da sociedade em estabelecer uma relação igualitária entre estes, focando apenas na deficiência, na falta da audição. Não se acostumaram a vê-los como indivíduos comuns, com uma língua própria e imersos no biculturalismo. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, esses preconceitos deveria proceder da mesma forma com os estrangeiros ao ingressar em nosso país, já que encontram-se a princípio como os surdos no aspecto linguístico, embora isso não ocorra. Então por que isso acontece com o povo surdo? Em contra posição, a autora deu a entender na citação acima que essa cultura não existe, mas é bom lembrar que a cultura surda é a forma deles compreender e modificar o mundo a seu modo. 
“Se considerarmos que os surdos não são „ouvintes com defeito‟, mas pessoas diferentes, estaremos aptos a entender que a diferença física entre pessoas surdas e pessoas ouvintes gera uma visão não limitada, não determinística de uma pessoa ou de outra, mas uma visão diferente de mundo, um „jeito Ouvinte de ser‟ e um „jeito surdo de ser‟, que nos permite falar em uma cultura da visão e outra da audição” (SALLES; et al. P.39, 2004)
             
            Essa visão limitada, determinista, nada mais é do que o preconceito, a falta de aceitação, a ignorância. Infelizmente a sociedade valenciana e as instituições que a governa, bem como as escolas não se atentaram para isso, valorizam apenas o “defeito” e não a pessoa surda. No que se refere à cultura da visão, pode-se chamar a atenção para Pedagogia Visual, é um dos grandes dilemas da educação de surdos, pois seu canal de percepção e compreensão é a visão, e por isso, adequar-se a esse modelo de aprendizagem é o que se configura como o desafio da educação de surdos, priorizar o visual e não a audição, o som.
            Já em relação à construção da identidade surda, essa ocorre muitas vezes tardiamente, por conta de circunstancias alheias a seu desejo. O principal deles é a aquisição da língua de sinais tardiamente, tirando-lhes o direito de conhecê-la desde criança. Um dos motivos corriqueiros para isso é a priorização do oralismo (tentativa de fazer os surdos a falarem oralmente), omitindo o uso da língua de sinais para essas pessoas. 
Quando constatada a falha desse método é que lhes são apresentados à língua de sinais, depois de ter causado graves prejuízos psicológicos, interacional, educacional e de identidade. Por quanto, para construir uma identidade surda é necessário uma “(...) transmissão coletiva de comportamentos pelo povo surdo nas comunidades surdas, ocorrendo naturalmente quando os membros surdos se encontram nestas comunidades”. (NOVAES, p.58, 2010). Se lhes foram retirados essa vivência nas comunidades surdas uma crise de identidade é inevitável, pois eles não se sentem pertencentes ao mundo ouvinte pela sua limitação física, restando-lhes apenas um mundo de interrogações. 
O contato com a comunidade surda desde constatado à deficiência é fundamental para evitar esses prejuízos, beneficiando em seu desenvolvimento linguístico, social, cultural, dando-lhes sua verdadeira identidade. É importante ressaltar que 
 “(...) estabelecer níveis de respeitabilidade e garantia de igualdade de direitos humanos ás pessoas com diferentes origens, crenças, etnias, gênios; uma convivência pacífica entre os membros pertencentes a grupos minoritários e os grupos majoritários de uma comunidade social, sem qualquer descriminação” (FERNANDES, p.91, 2008).
             
É fundamental para uma boa convivência entre os demais grupos sociais. É importante lembrar que mesmo com a identidade surda, eles estão imersos no biculturalismo, pois vivenciam experiências na comunidade surda, bem como na dos ouvintes. 
Esse biculturalismo faz-se necessário por conta desses dois mundos em que estão inseridos, e por uma questão de sobrevivência, pois eles precisam estabelecer relações com esses dois grupos e para isso necessitam dominar a língua de sinais, assim como o português escrito e/ou oral, tornando-se bilíngues.
Mas, o que ocorre preferencialmente por opção da família e influência da sociedade é a imposição do oralismo, não que isso seja algo totalmente negativo, mas tira-lhes o direito de decidir em que modalidade linguística que lhes são mais confortáveis ou naturais para sua comunicação.
“A dificuldade de lidar com outro tipo de linguagem que não seja a oral faz que os interlocutores do surdo – inclusive os pais – se vejam diante de uma situação conflituosa, da qual preferem se afastar. E há, ainda, um medo em relação ao desconhecido” (SANTANA, p.26, 2007).

            Pois, o esperado pela família é um filho “perfeitinho” e a descoberta da surdez causa um grande choque, desnorteando-os. Onde o concelho da maioria dos médicos é a obtenção do aparelho auditivo privilegiando oralização, visando o “concerto da audição”, por quanto só assim poderão desfrutar de uma vida em sociedade normalmente, pensando teoricamente.

De acordo com Souza (2007)
 “O papel do médico, no momento de informar o diagnóstico da surdez, deveria ser o de orientar os pais com clareza e imparcialidade, apontando as alternativas que levarão seus filhos a atingir o mesmo desenvolvimento que as crianças ouvintes. (...) Deveriam orientar sobre a importância da Língua de Sinais para as crianças, destacando os ganhos linguísticos e afetivos que esta implica, e o fato de que a Libras não interfere negativamente na aquisição da oralidade”. (in; WITKOSKI, p. 40, 2013)

            Já foi comprovado que a criança que obtém a língua de sinais como primeira língua se desenvolve da mesma forma que as crianças ouvintes. Mas, por desconhecimento e falta de mais informação acerca da língua de sinais, leva os familiares muitas vezes, por orientações equivocadas dos médicos a proibi-la. Causando consequências que já foram citadas anteriormente.

            A aquisição da língua de sinais pelos familiares nesta localidade dificilmente acontece, ratificando o pensamento de que o bilinguismo é uma questão de sobrevivência. E o multiculturalismo faz parte da construção do ser surdo.
            O monolinguismo da família causa uma carência afetiva nos indivíduos surdos, haja vista que as relações intrafamiliar são mínimas, “a mãe e o pai não se propõem a aprender essa língua e usá-la efetivamente com o filho. Isso porquê acreditam que a língua de sinais é a língua do filho” (SANTANA, p.27, 2007). Ou seja, que essa língua não faz parte do ambiente natural do seu lar, e essa maneira de falar é desconexa com o habitual. Deixando-o sobreviver num mundo estranho sem o apoio linguístico.

            De acordo com Ronice Muller de Quadros:
“O bilinguismo de língua de sinais e oral é a única forma de dotar o surdo de instrumentos que lhe permitam interagir cedo com seus pais, desenvolver suas habilidades cognitivas, adquirir conhecimento de mundo, aprimorar interação com a comunidade surda e ouvinte, promovendo o aculturamento dentro de ambos os grupos sociais” (p.220, 2006).

A aceitação e adesão da língua de sinais no seio familiar minimizariam e muito os problemas relacionais, comunicacionais e conhecimento de mundo dos indivíduos surdos valencianos e demais lugares que enfrentam as mesmas ou parecidas dificuldades, porquanto prepararia esse individuo para a vida em sociedade com mais bagagem para encarar os preconceitos e diversas barreiras estabelecidas pela comunidade ouvinte.

Vale lembrar ou ressaltar que apenas a aceitação da família quanto à língua de sinais não resolveria todas as dificuldades que os mesmos enfrentam, mas ter uma língua é essencial para construir suas relações, ter uma identidade, uma cultura e se desenvolver intelectual e socialmente. O problema maior é a falta desta durante muito tempo na vida do surdo.
Pois:
“(...) a questão da linguagem (...) ela não envolve apenas uma língua, mas tudo que a cerca – um ambiente social, uma identidade, um grupo. Apenas quando todos esses aspectos são completados é que se pode propiciar a um indivíduo a plena aquisição de linguagem que vem englobada na pertinência a um grupo, na própria consciência do indivíduo como ser social e da linguagem, que pode usar essa linguagem mais do que para se comunicar, mas para estabelecer diálogos consigo mesmo” (MOURA, P.22, 2013)

            Os surdos valencianos vivenciaram e vivenciam esses dilemas, ainda que o bilinguismo seja superficial para a maioria deles, por quanto o domínio da língua portuguesa é ainda insuficiente, apenas supre as necessidades mais emergenciais, como por exemplo, escrever seu nome, o da mãe e o do pai, o endereço, dentre outros. 

            Enfim, ser bilíngue trás “a possibilidade de ser plenamente multicultural é ter oportunidades nos dois mundos, surdo e ouvinte”. (SALLES, et al. p.47, 2004) Aproveitando tudo que há de melhor, que ambas podem proporcionar.  Os profissionais da educação que tiverem o conhecimento a respeito desses aspectos socioculturais da comunidade surda já terão dado um passo importante para lidar com eles em sala de aula, pois as experiências que o ouvinte vive são diferentes dos indivíduos surdos, assim como seu conhecimento de mundo.  

Então, para incluir o aluno surdo na escola regular, não é apenas coloca-lo na escola juntamente com um profissional intérprete de língua de sinais e ministrar a aula para os demais alunos ouvintes e esperar que o surdo acompanhe e aprenda. A prática de inclusão vai além disso, não só conhecer a história desses alunos, conhecer seu nível linguístico em Libras e na Língua Portuguesa, como também, preparar a escola como todo, os alunos surdos e ouvintes para ambos estarem abertos, preparados para aceitar a diferença um do outro e proporcionar um ambiente bilíngue para que as relações sociais aconteçam e evitem a segregação.  

DIFICULDADES QUE AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA AUDITIVA E SURDOS ENFRENTAM NO AMBIENTE ESCOLAR

As dificuldades enfrentadas por pessoas surdas no que se refere à educação não são novas, mas em cada localidade há uma especificidade, uma peculiaridade. Em Valença a principal delas é o modo como à educação de surdos foi se estabelecendo. Sendo inseridos nas escolas regulares sem uma preparação prévia dos profissionais que iriam atuar com estes, sem uma discussão do que seria necessário mudar no ambiente escolar como todo.
 
            Por conta desse método de inclusão ineficaz, as coisas persistem em se manter inalteradas. Muito se deve pela carga histórica da pessoa com deficiência e os padrões de normalidade estabelecidos, vale ressaltar também a formação dos profissionais de educação, os quais foram preparados para ensinar apenas aos alunos que estão dentro do padrão, ou seja, os que não possuem nenhum tipo de deficiência, e por consequência disso, em sua maioria, resistem em aceitar uma mudança didático-pedagógica para o ensino de pessoas surdas, ás vezes por se sentirem despreparados para isso. Porém, é sabido que o ato de educar/ensinar é uma aprendizagem constante, apesar das dificuldades enfrentadas ao lidar com esse público.

Observe o relato de Rosani Suzin Santos (surda), autora do livro “Ser surda: história de uma vida para muitas vidas” juntamente com Sílvia Andreis Witkosk, a qual fez uma análise da história. Ela estudava na mesma escola onde sua mãe era professora.
“[...] permaneceu nesta condição até que começou a sentir vergonha por ainda estar no segundo ano, na medida em que era mais velha que os outros alunos. Por tal foi colocada, na mesma escola, no quinto ano em uma escola de ouvintes, onde era a única surda. O professor falava e ela precisava perguntar aos colegas o que ele havia dito, e estes lhe passavam sempre só resumo, resumo, resumo. A sua história neste período, segundo ela mesma, era só resumo, resumo e copiar e copiar dos colegas. Isso em todas as disciplinas: só copiava e não entendia nada” (SANTOS, p. 25,25. 2013)

Veja que ela era a mais velha da turma, estava atrasada quanto ao seu nível escolar, isso não é uma particularidade apenas dessa autora, a sua história retrata a realidade da maioria dos surdos na cidade de Valença, onde tem apenas uma escola voltada para a educação de pessoas com deficiência, sendo a única possibilidade de estudo para eles, a qual utiliza a língua de sinais. Sendo assim, aqueles que não têm a possibilidade de estudar nela, vai para o ensino regular, onde repetem o ano várias vezes por não acompanhar os demais alunos, onde ao decorrer do tempo à instituição é obrigada a passá-lo de ano por sentir pena dele e por ele ter uma deficiência. Ou seja, a defasagem e a banalidade no ensino de pessoas surdas causam um atraso na sua educação, por quê a cidade não oferece uma escola de qualidade para eles, e a escola acaba se acomodando nessa realidade por não acreditar que ele possa aprender como os demais e também não oferece as condições necessárias  e nem luta para obtê-la geralmente.

Essa desconsideração com a educação de pessoas surdas, é também uma questão política e governamental desta localidade. Os governantes não veem essa questão como prioridade, não se preocupa em oferecer ás condições mínimas de estudo para esses alunos, dando-lhes apenas  condições menos igualitárias e desfavoráveis. E a escola aceita essas condições por ser subjugada a ela.

A frustração em ser a mais velha da turma causa um constrangimento e desestimula a aprendizagem por não ter um par na mesma condição que ela. A falta de uma comunicação entre os demais colegas dificulta a aprendizagem. O isolamento comunicacional configura-se como uma barreira, pois permanece ilhados dentro de uma comunidade escolar majoritariamente ouvinte, que desconhece a língua de sinais. A falta de entendimento do que era ensinado, levou-a recorrer aos colegas como mais uma tentativa em aprender, mas os mesmos por falta de conhecimento em como ajudá-la lhe passavam apenas resumos.

O fato de copiar o que está na lousa gera uma ideia errônea que os surdos sabem ler e escrever, não se sabe se o caso da autora é semelhante, mas essa ideologia é promulgada muitas vezes por pessoas inexperientes ao lidar com indivíduos surdos, estes (os surdos) são considerados analfabetos funcionais, apenas copiam e não sabem o significado das palavras, talvez possa ser pela função que eles veem na escola, ir apenas copiar com outros colegas. Talvez se perguntem por quê vão para a escola já que não aprendem, estão inseridos apenas num círculo vicioso de cumprir o ritual de ir a escola e fingir que aprendem e os responsáveis pela sua educação fingem que ensinam para mostrar que a educação inclusa anda em todo vapor.

Muitos surdos desestimulam-se por conta disso, não vê uma funcionalidade na escola, apenas vão para lar passar o tempo, fazer atividade e copiar, já que não muda nada em suas vidas, continuam analfabetos. Dessa forma gera um questionamento á respeito do papel da escola, será que ela está de mãos atadas quanto à educação de surdos no município? Ou será que o desinteresse e o comodismo criou essa situação? 
Esse olhar do surdo a respeito da escola deve ser levado em consideração, segundo Machado

“A importância de se investigar a Integração/Inclusão do aluno surdo na escola regular está na regência de se ouvir os usuários do sistema educacional para garantir propostas curriculares capazes de atender, realmente, às peculiaridades de aprendizagem de seus alunos, criando-se caminhos mais ajustados às necessidades escolares de estudantes surdos” (p.44, 2006).

Um dos erros comuns está na falta de consultar os indivíduos surdos usuários do sistema educacional público quanto à melhor forma de educá-los, utilizando ferramentas mais eficazes, que pode se constituir até mesmo como simples ao ver a resposta desses indivíduos. A educação de surdos não são tão complexas como se pensa, a dificuldade está na falta de acesso à sua língua materna (a Libras) nas séries iniciais e ao longo de todo seu caminho de escolarização.  A imposição da oralidade e a desvalorização da língua de sinais, o desinteresse a cerca dos aspectos socioculturais da comunidade e da realidade do indivíduo surdo.

Os padrões de normalidade não dão espaço aos alunos surdos de se verem participantes desse processo, não lhes são dadas a oportunidade de incluir e mostrar representantes surdos que superaram suas dificuldades e limitações, como forma de exemplo e incentivo. A literatura canônica não sede espaço para a literatura surda, para que os mesmos identifiquem-se nesse processo e saibam que não estão isolados no mundo ouvinte, que há espaço para eles também, bem como, há referências que eles possam se espelhar, como afirma Sílvia Wikosk  

“O vislumbrar de outros surdos que conseguiram alcançar sucesso escolar, tornando-se universitários, indubitavelmente proporciona mirar um espelho quase inexistente em suas vidas, na medida em que a maioria convive familiarmente apenas com ouvintes, os quais significam o outro, um modelo inatingível, e com colegas surdos, em sua maioria, na mesma situação de subjugação de suas potencialidades” (p. 89, 2012).


Esse espaço teoricamente inclusivo traz um embate entre interesses da comunidade ouvinte e surda, pois ambos têm necessidades educacionais específicas, onde a minoria estará subjugada ao ambiente estabelecido pela maioria, cabendo-lhes apenas adequar-se a isso, caso contrário ficará a parte do processo educacional.

Veja o relato de um surdo valenciano acerca de sua vida escolar.

“Eu comecei a estuda de 8 anos de idade. Na Associação Pestalozzi , primeiro aprendi a libras básica e depois aprendi a escreve meu nome . E depois de 3 anos me mudei na escola normal  mas não tinha intérprete  , os meus colegas me ajudava  as frases no quadro e depois eu aprendi a ler melhor eu consegui oralizar os lábios e escreve as frases pra mim não foi fácil aprender a ler e escreve  mas eu consegui agora já me formei”.
             
            A associação Pestalozzi é voltada exclusivamente para pessoas com deficiência, a qual presta serviços educacionais. Mas o que interessa aqui são as etapas percorridas por ele. Então observe que ele e outros surdos precisam esforçar-se muito mais que as demais pessoas ouvintes por não ter um ambiente educacional favorável para sua aprendizagem, assim como não lhe é dada acesso ás informações em sua língua materna.

            Essas condições inadequadas cria a ideia que as pessoas surdas não são capazes de aprender, e por causa disso são inferiores. A desmotivação do sujeito surdo minimiza e/ou desmerece sua capacidade de aprendizagem. O que faz muitas vezes o professor desacreditar que os mesmos possam aprender como os demais. 

             A responsabilidade da aprendizagem é transmitida como responsabilidade unicamente do aluno surdo, assim como vimos no relato, o fracasso dos profissionais envolvidos recai sobre eles (os surdos), como se fossem culpados por não conseguirem aprender e/ou acompanhar essa forma tradicional do educar. 

“Para garantir o sucesso na concretização desta intencionalidade educativa, há que superar as barreiras existentes em suas múltiplas origens e intensidades, para o que se faz necessário: (a) liberar o aluno da condição de solitário responsável por seu insucesso na escola, (b) identificar todos os obstáculos que lhe impedem ou dificultam seu sucesso no processo da aprendizagem, (c) analizar o contexto em que a aprendizagem se realiza, e (d) abandonar definitivamente, os obstáculos, quaisquer que sejam [...] Existem barreiras em todos os componentes do sistema educativo, nos níveis macro e microscópico.”
(CARVALHO, p. 51,52. 2000)

            A autora praticamente resume o que até o momento foi dito neste capítulo, pois os obstáculos já foram identificados, mas o que ocorre é ignorá-lo. Essas barreiras não são superadas e não serão enquanto não houver uma língua comum a todos na comunidade escolar, levando em consideração que a maioria dos surdos valencianos desconhece o português escrito num nível que possam compreender ou adequado ao nível de escolarização, restando para a escola aderir à língua de sinais como meio mais eficiente para a comunicação e integração do aluno surdo.

            Quando a escola parar para analisar o contexto educacional em que estes alunos estão inseridos, perceber-se-á que é consideravelmente desfavorável, restando-lhes poucas alternativas do que fazer com esses alunos. Os quais, em sua maioria, passam de ano como única forma ou solução imediata para não prejudicá-los ainda mais, sabendo que eles permaneceram neste contexto e condição educacional até a conclusão do ensino fundamental e médio.
           Nesse caso o conselho de classe funciona como
“[...] um meio pelo qual o aluno tenha vantagem para obter o êxito de passar para o ano seguinte, tendo como critério principal, ou até mesmo o único, seu comportamento, como ocorre nas escolas valencianas a esse respeito. [...] Avalia-se o indivíduo pelo comportamento e não pelo seu desempenho no aprendizado”. (SANTOS, p 14, 2013)

             Acostuma-se dessa forma, a perceber o indivíduo surdo como apenas um aluno que ao comportar-se adequadamente é merecedor desse benefício por não haver mais nenhuma perspectiva de melhoramento da sua condição e contexto educacional.

            Por conta disso, a comunidade surda fica refém desse processo educativo, acostumando-se e acomodando-se com essas condições, sem se conscientizar que essa realidade pode ser mudada á partir do momento em que eles conhecerem e reivindicarem seus direitos linguísticos e educacionais. Organizando-se ideologicamente em prol de objetivos comuns á comunidade. O que infelizmente não ocorrerá enquanto não desperta-se, dando ressignificação ou funcionalidade ao papel da escola á partir das ideologias e/ou novos conceitos que os mesmos derem a ela.

            Enquanto não reivindicarem por profissionais surdos, uma escola própria ou uma escola que valorize e respeite a língua de sinais, a cultura e a identidade surda, com metodologias adaptadas exclusivamente numa perspectiva visual, bem como, utilizar o português como segunda língua.            A importância em se oferecer essas condições, bem como, professores surdos, se dá, segundo Flaviane Reis pelo fato de [...] que os professores surdos guardam na sua identidade que faz os alunos surdos se identificarem com a cultura, assumir sua diferença, usar a língua de sinais e perceber sua alteridade é algo importante.” (P.98,2000). 

           Enfim, esse modelo ouvinte ideal e perfeito é deixado de lado por ser inatingível para eles, colocando referenciais que conhecem e vivem a mesma condição física que eles, promovendo uma identificação com a cultura e língua que lhes são comuns, fortalecendo para o conhecimento de sua identidade, assim como, ser ativos e dar novos significados quanto ao papel da escola. Incluindo-se efetivamente no processo educacional.

PROCEDIMENTO DIDÁTICO/PEDAGÓGICO ULTLIZADOS POR PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO QUE ATUAM COM ALUNOS SURDOS OU COM DEFICIÊNTE AUDITIVA NA CIDADE DE  VALENÇA

            Nesta etapa serão analisada e discutida os procedimentos didáticos/pedagógicos e as adaptações curriculares que porventura os profissionais da educação tiveram que fazer por ter um aluno surdos, bem como, as dificuldades enfrentadas por eles. Foram entrevistados através de questionários via e-mail dois (02) professores que trabalham com alunos surdos na cidade de Valença-ba. A fala destes profissionais será sinalizada no texto entre aspas em itálico.

            Desta forma, é sabido que os profissionais da educação não tiveram uma formação que ensinasse sobre a abordagem no ensino de pessoas com deficiência e muito menos sobre a educação de surdos, a qual se configura como mais complexa por conta do déficit educacional que os mesmos apresentam e utilizarem uma língua viso-espacial para se comunicarem.

            O Professor A, relatou o seguinte: “A minha formação em letras não contemplou o ensino de português como língua estrangeira, não me sentia metodologicamente preparado para ensiná-la a um aluno surdo”. Essa queixa representa as dificuldades vividas por outros profissionais que atuam na escola inclusiva. Sabendo que o sistema educacional aderiu por força da lei à inclusão, sem preparar os professores para lidar com alunos surdos e principalmente em como abordar o português como segunda língua.

            A estrutura educacional já estava estabelecida, mesmo com a política de inclusão, não houve nenhuma modificação nesta estrutura e foi exigido do professor um saber que não lhes foram dadas. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental afirma que: “Ao professor cabe planejar, implementar e dirigir as atividades didáticas, com o objetivo de desencadear, apoiar e manter o esforço de ação e reflexão do aluno, procurando garantir a aprendizagem efetiva” (p22, 1998).
Nesta perspectiva, como alcançar esses objetivos? Como garantir a aprendizagem se as condições em que esses profissionais atuam não lhes permitem oferecer uma metodologia que contemple a educação de surdos e cumpram as metas contidas nos PCNs?

            Levando isso em consideração, as modificações metodológicas configuram-se como simples, como afirma a professora B quanto a isso.
Modificar as aulas com mais gravuras, imagens e vídeos legendados”. Isso mostra que essas modificações são singelas diante da situação, pois atuam sem recursos didáticos e metodológicos suficientes para garantir a aprendizagem, bem como, precisam mostrar que estão cumprindo com suas obrigações de educadores.

            Essas condições não são suficientes para que os professores possam contemplar as necessidades educativas desses alunos. O professor não se sente capacitado para atender um aluno surdo, primeiro porquê da falta de comunicação entre ele e o aluno surdo, como afirma o professor A: “[...] Destaco o foto de eu não saber LIBRAS [...] caso eu tivesse tido tal oportunidade, antes de me tornar professor de um aluno surdo, as dificuldades que enfrentei teriam sido menos árduas”.  Isso por que diminuiriam as fronteiras e as barreiras comunicacionais entre ambos, assim como levaria o professor a compreender as especificidades do aluno, bem como levaria em consideração a língua de sinais e compreenderia as diferenças e semelhanças das línguas em choque envolvidas, como também avaliaria melhor a forma de ensiná-lo considerando essa diferenciação linguística.

            Com base nisso, o autor May Seagoe traduzido por José Severo, mensiona que
“[...] além dos seus conhecimentos das coisas a serem ensinadas, os professores precisam estar interessados nos seus alunos como seres humanos vivos e em desenvolvimento, e ter conhecimentos técnicos a respeito da natureza de seus alunos. Precisam saber o que os seus alunos são fora da escola, como são seus lares e as suas famílias, e qual a expectativa que se tem de que eles possam vir a desenvolver plenamente suas potencialidades” (p 6 a 7, 1972) 

            Reportando-se ao que foi dito no primeiro capítulo deste artigo referindo-se ao contexto sociocultural do aluno surdo. Conhecer esse contexto é de elementar importância para que o professor aproxime o conteúdo com a realidade social desses indivíduos, contudo, conhecendo também suas experiências de vida.

            Mas devido à carga-horária também, a professora B afirmou que “[...] as escolas brasileiras não possuem estrutura para atender e incluir esses alunos” imagine o que May Seagoe propôs? Com a quantidade de alunos e escolas para dar aulas, não sobra tempo para o docente pensar nesta questão e/ou cumprir essa tarefa.

            A estrutura de exclusão já está tão consolidada que não sede espaço para dedicar a devida atenção para os alunos com deficiência, o que é feito no máximo é traçar estratégias para que esses alunos sintam-se incluídos e partícipes do contexto educacional, o que muitas vezes se faz é tentar suprir as necessidades educacionais desses alunos no horário oposto, não que isso seja negativo, mas o processo educacional para os mesmos torna-se mais cansativo, levando em consideração que os demais alunos não precisam disso, sobrando mais tempo livre para os trabalhos e atividades.

            Essas estratégias tornam-se mais dispendiosa e não consegue cumprir o seu objetivo que é o de tentar minimizar o déficit educacional do aluno. Por outro lado, é positivo por respeitar o ritmo de aprendizagem do aluno surdo sem a pressão exercida pelos colegas que tem um conhecimento maior que ele e acaba inibindo-o e/ou gerando um bloqueio para a aprendizagem, pois a dinâmica em sala de aula é rápida, dificultando o acompanhamento do mesmo do que esta sendo ensinado.
            E para auxiliar na acessibilidade do aluno surdo em sala de aula há o Intérprete Educacional (IE) de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Profissional este que ainda não tem um papel bem definido nas escolas valenciana, por falta das escolas procurar mais informações á respeito, por conta disso, muitas vezes lhe é atribuído a responsabilidade de ensinar a esses alunos. Mas a este profissional cabe o ato de interpretar, mediar na comunicação e na acessibilidade metodológica para o ensino e aprendizagem do aluno surdo.
           Segundo Cristiane Satiko e Cristiana Blogria
“[...] o IE trabalha ativamente no processo de ensino-aprendizagem, não só interpretando conteúdos como também se envolvendo nos modos de torna-los acessíveis ao aluno, conversando e trocando informações com o professor [...] suas opiniões são essenciais em todos os processos envolvidos, pois este é um forte colaborador para a construção de uma prática pedagógica que seja adequada ao aluno surdo dentro do contexto de uma proposta educacional inclusiva bilíngue” (p. 207, 2013).

            Para que o trabalho do intérprete tenha um bom andamento e/ou não seja prejudicado é de extrema necessidade estabelecer uma parceria entre este e o professor, atentar ás orientações que ele propuser para auxiliar, mesmo que minimamente na acessibilidade metodológica. Mas para isso faz-se necessário que o professor aceite estas sugestões e esteja aberto para aceitar essas mudanças, mesmo que seja necessário trilhar por caminhos metodológicos desconhecidos, a qual não esta acostumado. 
                                   
    Como afirma o professor A comenta:
Considero indispensável a presença do intérprete em sala de aula, ainda que o professor seja exímio conhecedor de LIBRAS. O intérprete é um „coprofessor‟, capaz de garantir ao aluno surdo as adaptações linguísticas de que precisa para entender conceitos e aplicações apresentados em língua portuguesa”.
             
A professora B dá continuidade afirmando que

 “[...] este profissional é indispensável em nossas práticas docentes, ter um aluno surdo é um desafio para qualquer professor atualmente”.

Nota-se desta forma que o intérprete educacional além de auxiliar na comunicação, também é uma espécie de orientador para contribuir na prática docente. Assim, cabe destacar que o intérprete precisa ter uma formação em sua área de atuação para cumprir com sua função. É importante também mencionar que este precisa esta aliado com o professor, obter antecipadamente os planos de aulas e/ou informações do assunto e do que vai ocorrer na aula de determinado dia, para preparar-se com os sinais específicos que cada disciplina e assunto exigem, evitando prejuízos na sua interpretação, bem como, na compreensão do aluno surdo.

Essa antecipação das aulas para o intérprete favorece também para que ele possa trabalhar com o aluno surdo os sinais da disciplina e/ou do assunto que por ventura o aluno desconheça, assim como, juntamente com o aluno surdo criar sinais inexistentes ou desconhecidos acerca do assunto, auxiliando na necessidade comunicativa do aluno acerca da língua de sinais.

Apesar disso
“[...] a presença do intérprete em sala de aula e o uso da língua de sinais não garantem que todas as necessidades educacionais dos surdos sejam atendidas, sendo importante ainda a disposição de recursos humanos, materiais e metodologias adequadas para que a aprendizado realmente se desenvolva” (BROGLIA; LACERDA, p. 206, 2013)

 Para complementar May Seagoe afirma que “[...] o modelo pelo qual o material selecionado é usado também tem importância equivalente” (p.11 1972). Ou seja, a presença do intérprete e as adaptações metodológicas não são suficientes para suprir a necessidade educacional de um aluno surdo, considerando a realidade valenciana. Fazer uma generalização a esse respeito seria inadequado por se tratar de contextos educacionais distintos, pois há localidades onde a educação inclusiva são mais eficazes.

Então, faz-se necessário levantar o seguinte questionamento: Será que esse modelo de educação inclusiva é o mais adequado para incluir a pessoa com deficiência auditiva na sociedade e prepará-lo para viver no meio social?
O professor A vê a educação inclusão da seguinte forma: 

Sou a favor das diferentes políticas de inclusão, desde que aconteçam de maneira bem planejada. Dessa forma, manter um aluno surdo entre „alunos ouvintes‟ (?), a meu ver, é uma prática pertinente e necessária: Trata-se de uma medida positiva para todos os envolvidos. Para o aluno surdo, estar numa sala de aula regular garante que ele se sinta capaz de viver no mundo comum a todos, amenizando o fato de ser portador de uma necessidade especial e, por conseguinte, fortalecendo a sua autoestima. Para os demais alunos, o convívio com o aluno surdo representa um bom exercício como lidar, harmonicamente, com o diferente, além de desafiá-lo a utilizarem diferentes formas de comunicação. Tudo isso, no entanto, só é possível se a escola dispor de uma boa equipe pedagógica capaz de pensar ( e repensar!) num planejamento adequado, visando a assegurar um ambiente de aprendizagem para os diferentes perfis de alunos. Além disso, é preciso instrumentalizar o professor para promover um ensino eficiente nesse ambiente”. 

            Professora B:

Vejo de maneira muito positiva, acho que as escolas precisam se adequar a esta nova realidade”.

            Observe que os professores veem a inclusão de pessoas surdas na escola regular de forma positiva, porém fazem algumas ressalvas sobre esse sistema educacional. Ressaltando que há a necessidade de fazer mudanças e capacitações. Mas algumas frases no texto A e B chamou a atenção, como por exemplo: “Ele se sinta capaz de viver num mundo comum a todos”; “fortalecendo sua autoestima”; “assegurar um ambiente de aprendizagem”;
“instrumentalizar o professor”; “adequar a essa nova realidade”. Essas frases mostram-se utópicas ao recordar-se a tudo que já foi discutido até agora.

            Essas idealizações não são condizentes com a realidade, pois sabe-se que a estrutura educacional não oferecem essas condições. Enquanto não for interesse da política nacional olhar para a educação especial e investir numa educação de qualidade para as pessoas com deficiência, não preparar todas as instâncias do sistema educacional para lidar com os mesmos, dando-lhes um ambiente educacional condizente com a realidade psíquica, motora e linguística, e instrumentalidade suficiente para os profissionais que lidam com esses alunos diretamente.

            Enquanto isso não ocorrer 
“[...] nota-se que um grande número de surdos, ao concluir sua escolarização básica, não é capaz de ler e escrever fluentemente ou de ter domínio sobre os conteúdos pertinentes a este nível de escolarização” (FERNANDES, p.39, 2008)

            Permanecendo essa triste realidade, por nada ser feito suficientemente para promover uma mudança realmente significativa.
 
PALAVRAS FINAIS

            Sabe-se que as influencias do contexto social e cultural do aluno surdo interferem diretamente na sala de aula, onde é fundamental conhecer as origens desses alunos para preparar aulas com base na sua realidade. É sabido também as dificuldades enfrentadas pelo aluno surdo no ambiente escolar, assim como as abordagens didáticas e pedagógicas dos profissionais da educação.

            Desta forma, ao longo deste artigo foi observado e concluído que as adaptações didático-pedagógicos realizadas, são insuficientes para atender as demandas educacionais de um aluno surdo. Sabendo que essas adaptações seriam mais eficazes se o aluno surdo tivesse uma bagagem de conhecimentos necessários ao seu nível de escolarização. Devido a esse déficit educacional, as adaptações metodológicas e didáticas configuram-se como simplistas, mediante a esta condição de falta de conhecimentos anteriores para dar prosseguimentos que corresponde ao seu nível de escolarização, bem como linguísticos. Pois os alunos com deficiência auditiva têm pouco domínio do português escrito, assim como, da língua de sinais, que exige dele um conhecimento específico de sinais por conta das disciplinas curriculares e conteúdos. Os quais não fazem parte do seu domínio.
           
            Outro fator que se chegou a uma conclusão foi às dificuldades enfrentadas por esses alunos, as quais são devidas, em como esses conteúdos são passados, a desvalorização da literatura surda, ao conhecimento e domínio em ambas as línguas envolvidas no processo de ensino e aprendizagem, ás questões socioculturais, que em sua maioria é desconhecida do corpo docente, fato este que configura-se também como uma barreira educacional, pois os professores não sabem o que acontece fora dos muros das escolas com esse aluno, sua família, seu círculo de  relações sociais, para que possam diminuir as fronteiras entre aluno-professor, assim como, adequar os conteúdos ao conhecimento de mundo do mesmo, contextualizando-o a partir disso. 

            Quanto ao papel e importância do intérprete educacional, se dá primeiramente pelo fato de ser o mediador da comunicação entre o aluno surdo e a comunidade escolar. Em segundo, o seu papel é auxiliar na acessibilidade metodológica e didática dos professores para o aluno surdo. Mas devido ao déficit linguístico e o despreparo dos profissionais da educação quanto á educação de surdos, seu papel vai além disso. 

            Mas o que foi mais marcante, é que a educação de surdos na cidade de Valença ainda está longe de ser a ideal, a almejada. Isso se deve a vários fatores, mas um dos principais é a alienação e analfabetismo político, o afastamento e a falta de interesse da comunidade surda em reivindicarem melhorias quanto a sua educação, em cobrar das escolas e representantes políticos o cumprimento da legislação, a falarem o que são necessários para ter um ambiente educacional propício para a sua aprendizagem, não deixar mais que os outros (ouvintes) falem por eles, passem a ser ativos, participantes na busca de uma educação de qualidade e adequada para as pessoas com deficiência auditiva, que respeite a identidade surda, que passem a usar a literatura surda como referência e favorecimento de trocas de aprendizagem entre ambas as culturas, respeitando-as mutuamente, colocando essas culturas num mesmo patamar de valorização, para que os surdos sintam-se valorizados e respeitados como as demais pessoas, para que o modelo ouvintista pare de sufocar o ser surdo, vendo-o como aquele que é frágil e precisa de ajuda e facilitações já que seu desenvolvimento é considerado lento em relação aos demais alunos. 

            É necessário uma mudança de visão sobre o indivíduo surdo, e para isso é necessário que provoquem essa mudança, é necessário o querer, a vontade para mostrar e provar que essa cultura do coitadismo em relação a pessoa com deficiência não passa de uma herança histórica e que a realidade é outra, os tempos são outros.

            Enfim, enquanto as escolas, alunos surdos, professores e intérpretes não se juntarem em prol de um bem comum para a educação de surdos, as mudanças serão insignificantes e simplistas. O comodismo continuará operante e o sistema educacional opressor continuará excludente para aqueles que são considerados fora dos padrões constituído majoritariamente como normais.


REFERÊNCIAS

CARVALHO, Rosita Edler. Removendo barreiras para a aprendizagem. Porto Alegre; Mediação ed. 2000.
FERNANDES, Eulalia. Surdez e Bilinguismo. Porto Alegre; Mediação Ed. 2° Edição. 2008.
FIGUEIREDO, Emílio. O que é educação inclusiva. São Paulo; Brasilense.
2011.
LACERDA; Cristina, SANTOS; Lara (org.) Tenho um aluno surdo, e agora? Introdução à Libras e educação de surdos. São Carlos: Edufscar ed, 2013. MOURÃO, Cláudio Henrique Nunes. Literatura Surda: Produções culturais de surdos em língua de sinais. Porto Alegre. 2011
NOVAES, Edmarcius Carvalho. Surdos: educação, direito e cidadania. Rio de Janeiro: Wak editora, 2010.
Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: Língua Portuguesa, Secretaria de Educação Fundamental.
Brasília, 1998.
QUADROS, Ronice Muller (Org.) Estudos Surdos I. Petrópoles-RJ; Arara Azul ed. 2006.
QUADROS, Ronice; PERLIN, Gladis (org). Estudos surdos II. Rio de Janeiro – Petrópolis; Arara azul ed. 2007.
SALLES, Heloisa Maria [et al.] Ensino de Língua Portuguesa para Surdos: Caminhos para a prática pedagógica. Brasília; Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos. 2004.
SANTANA, Ana Paula. Surdez e linguagem: Aspectos e implicações neurolinguísticas. São Paulo; Plexus ed, 2007.
SANTOS, Igor Rosário.  O ingresso das pessoas surdas no ensino regular de valença: pontos e contrapontos na aquisição do português escrito e da língua brasileira de sinais. Valença, 2013.

SEAGOE, May. Tradução de PEREIRA, José Severo. O processo da aprendizagem e a prática escolar. São Paulo, Nacional, vol. 107, 1972. WITKOSKI, Sílvia Andreis. Educação de surdos e preconceito. Curitiba – Brasília; CRV ed. 2012.
WITKOSKI, Sílvia; SANTOS, Rosani. Ser surda: História de uma vida para muitas vidas. Curitiba, Juruá ed. 2013. 
  

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