domingo, 23 de agosto de 2015

O INTÉRPRETE DE LÍNGUA DE SINAIS: VIVÊNCIAS DE TRADUÇÃO/INTERPRETAÇÃO

Silvana Nicoloso
Soélge Mendes da Silva
(2009, p. 83 a 90)
As reflexões que nos propomos a desenvolver neste momento não são recentes, são preocupações, anseios e conflitos que emergem de um pensamento crítico que nos perturba e atormenta desde o início de nossas vidas profissionais, quando passamos a conviver e ter maior contato com os surdos e, consequentemente, com a Língua de Sinais. As experiências que carregamos conosco através dos trabalhos realizados como intérprete de Língua Brasileira de Sinais são fundamentais para uma melhor compreensão desta língua e para uma mudança do olhar sobre ela.

Sabemos que toda mudança sugere uma quebra de valores pré-estabelecidos ao longo da história, uma nova visão de mundo, uma desconstrução de conceitos e pré-conceitos; por isso, quando falamos em um novo olhar ou em mudanças de paradigmas devemos levar em consideração todos os aspectos que estão imbricados neste processo de transformação, mutação e desconstrução. Um aspecto a ser considerado é o fato de atuarmos como intérprete de Língua de Sinais e, com isto, estarmos, constantemente, em contato com a comunidade surda e, consequentemente, com a Língua de Sinais.

A intenção de pesquisar, pensar, perceber, refletir e ver a Língua de Sinais sobre um novo prisma que não mais aquele que vinha sendo pensado, percebido e visto pela sociedade, ou seja, como uma pseudo-língua ou uma língua inferior, com menos valor, é extremamente desafiadora. Embora saibamos que a Língua Brasileira de Sinais é reconhecida legalmente no Brasil,
ainda há muito a se fazer para que alguns mitos sejam desconstruídos. Estudos linguísticos a respeito da Língua Brasileira de Sinais são poucos e recentes. Assim, procuraremos desenvolver aqui uma análise sobre a Língua Brasileira de Sinais, bem como a importância do intérprete na relação entre a comunidade surda e a comunidade ouvinte com base nas contribuições de
situações por nós vivenciadas.

 Embora a Língua Brasileira de Sinais esteja oficializada conforme a lei 10.436, de 24 de abril de 2002 e regulamentada pelo Decreto 5626/2005, seu verdadeiro reconhecimento e sua aceitação enquanto língua por parte da sociedade em geral parece estar acontecendo a passos lentos, o que vem sendo um entrave para os avanços nas pesquisas, dificultando o acesso à informação, dados bibliográficos e referenciais teóricos.

No ato de interpretar, muitas vezes, nos questionamos a respeito da melhor maneira de comunicar e transmitir uma mensagem e, principalmente, de traduzir uma frase ou expressão respeitando seu significado e sua intenção dentro do contexto. Em diversas situações nos sentimos incapazes ou limitados em traduzir algo, principalmente quando notamos que perdermos uma informação importante ou quando nos falta conhecimento aprofundado do assunto que está sendo abordado. O olhar aguçado, ou seja, uma boa percepção visual e a atenção são fundamentais para uma interpretação de qualidade.

Para Famularo (1999) a interpretação é uma tarefa profissional solitária, pública e solidária. Solitária porque o intérprete é o único responsável pelas tomadas de decisões sintáticas, semânticas e pragmáticas nas duas línguas durante cada interpretação. Ele é um “artesão” quando interpreta a partir de seus saberes linguísticos e culturais, assim como sua bagagem cognitiva e afetiva. Este produto cultural se materializa corporal ou vocalmente numa tarefa pública que o expõe sobre o olhar do outro. Também é uma tarefa solidária porque o
intérprete, muitas vezes, é visto como “ator social”, podendo cruzar as fronteiras de duas línguas e duas culturas, obtendo informações de ambas, intermediando a conversação. Agindo como mediador cultural na comunicação entre as pessoas ou vintes e surdas o intérprete é um elemento fundamental nessa relação intercultural.

Sander (2002), ao escrever sobre a formação dos intérpretes de Língua de Sinais afirma que estes deveriam ter, no mínimo, uma formação em nível superior, preferencialmente, na área em que atuam, além de um curso de intérprete de Língua de Sinais. Reforça, também, que somente desta maneira podemos falar em intérpretes profissionais e qualificados. Contudo, menciona que para se considerar um intérprete com qualificação profissional são necessárias duas condições, ou seja, uma formação acadêmica e um ambiente linguístico e cultural constante.

A formação acadêmica, aqui referida, não é somente aquela oferecida em cursos de nível superior, inclui cursos de interpretação e tradução reconhecidos nacionalmente. Da mesma forma que o intérprete de línguas orais apresenta um total de horas de estudos e de treinamentos para receber sua licença profissional, o intérprete de Língua de Sinais também deveria apresentar um mínimo de qualificação exigida. É necessário um treinamento formal com simulação de situações diversificadas e informações a respeito da cultura e identidade dos surdos, assim como estudar a morfologia, fonética, fonologia,
sintaxe, semântica e pragmática da Língua Brasileira de Sinais e da Língua Portuguesa. É relevante destacar o fato de que os intérpretes que atuam até o momento não tiveram todos esses conteúdos preteridos; muitos têm sido autodidatas porque a maioria dos cursos de Língua de Sinais existentes não vai além do nível básico e, também, porque priorizavam o aspecto lexical em detrimento do sintático.

Outro fator importante é a necessidade de aprofundar os estudos dos parâmetros não-manuais, isto é, a expressão corporal e facial (incluindo a direção do olhar) relacionando-os à produção da sentença, através de exercícios e técnicas de dramatização.

Sander (2002, p.130) comenta que: O ambiente linguístico constante diz respeito ao local onde a língua é praticada [...].” E reforça dizendo que:

“Um ambiente linguístico, onde a Libras é a primeira língua a acontecer, é de suma importância para a pessoa que quer ser um profissional na área da interpretação. É justamente ali que o intérprete irá aprender gírias, sinais novos e reconhecidos pela comunidade surda. É na associação que os surdos irão conhecer o verdadeiro caráter e a verdadeira identidade do intérprete”.

O trabalho de interpretação desenvolvido na UF SC abrange os cursos de Educação e Letras em disciplinas que têm surdos matriculados, assim como reuniões, seminários, palestras e demais eventos que contam com a participação de alunos e/ou professores surdos, sendo que a interpretação se
dá da língua oral para a Língua de Sinais e vice-versa. Quando necessário, também são realizadas atividades de tradução, a fim de organizar para a Língua Portuguesa os textos escritos ou sinalizados pelos surdos. No meio acadêmico, a prática tradutória escrita é denominada “tradução”, enquanto o termo “interpretação” é utilizado para fazer referência à prática tradutória oral ou em sinais.

Mas quem é o intérprete de Língua de Sinais, afinal? Segundo Quadros (2003):

“É o profissional que domina a Língua de Sinais e a língua falada do país e que é qualificado para desempenhar a função de intérprete. No Brasil, o intérprete deve dominar a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa. [...] Além do domínio das línguas envolvidas no processo de tradução e interpretação, o profissional precisa ter qualificação específica para atuar como tal. Isso significa ter domínio dos processos, dos modelos, das estratégias e técnicas de tradução e interpretação. O profissional intérprete também deve ter formação específica na área de sua atuação”. (p. 27-28)

Segundo Veras (2002) o prefixo “inter” na palavra intérprete, significa o que está entre uma língua e outra, pondo essas línguas em relação, criando uma afinidade entre elas. O intérprete de Língua de Sinais viabiliza a comunicação entre surdos e ouvintes, identificando-se com o orador, exprimindo-se na primeira pessoa, sinalizando e representando suas ideias e convicções, buscando imprimir-lhes similar intensidade e mesmas sutilezas que as dos enunciados em Português oral.

O trabalho do intérprete de Língua de Sinais consiste em pronunciar na Língua de Sinais um discurso equivalente ao discurso pronunciado no Português oral e vice-versa. Para realizar essa tarefa, é necessário que ele conheça itens lexicais equivalentes entre as expressões típicas da língua de partida e as da língua de chegada, procurando manter o sentido da mensagem.

Nesse contexto, interpretar não significa traduzir todas as palavras pronunciadas pelo emissor, ou seja, ser literal. Assim sendo, é possível afirmar que ser intérprete de Língua de Sinais é respeitar a estrutura gramatical da língua de chegada, possibilitando, dessa forma, a compreensão da mensagem pelo receptor. Ao intérprete é necessário tomar um tópico qualquer, entender a sua estrutura e estabelecer um vocabulário, habilidades estas sem as quais não será possível interpretar.

De acordo com Campos (1986)

“Não se traduz, afinal, de uma língua para outra, e sim de uma cultura para outra; a tradução requer, assim, do tradutor qualificado, um repositório de conhecimentos gerais, de cultura geral, que cada profissional irá aos poucos ampliando e aperfeiçoando de acordo com os interesses do setor a que se destine seu trabalho”. (p.27-28)

Sem dúvida, uma das maiores preocupações entre os intérpretes refere-se à legitimidade e fidelidade nas informações que devem ser interpretadas, a fim de realizar uma tradução apropriada.

De acordo com Magalhães Jr. (2007):

“Como aprendem logo cedo os intérpretes, os sinônimos na verdade não existem. Toda palavra, ainda que listada em dicionário como sinonímia perfeita para outra, de outro vernáculo, carrega consigo uma carga emocional, um sentimento, que varia de país para país, de cultura para cultura. Varia também conforme o conjunto do próprio intérprete. Portanto, há sempre alguma diferença de tensão a compensar, e melhor seria classificar o intérprete não apenas como transformador, mas como um bom estabilizador de voltagem”. (p. 53)

Por outro lado, a infidelidade está intimamente relacionada a alguma situação na qual o intérprete utiliza termos e ideias que deturpam e comprometem totalmente as intenções do autor do texto original, ou suprime determinada informação do discurso, seja por razão de desconhecimento ou de lapso de memória. O lapso de memória pode ocasionar ampliação da ideia original, simplificação da mensagem ou omissão do que foi narrado.

O intérprete necessita de reações rápidas, pois recebe, armazena e reproduz as informações quase que concomitantemente. Sua capacidade de memória é facilmente esgotada, principalmente se não tiver muita prática e conhecimento das línguas envolvidas e do assunto a ser interpretado.

Através de nossas próprias experiências na interpretação e vivências dentro da universidade é possível relatar que quando se está interpretando a concentração é absoluta.

Cabe ressaltar que o mérito de uma interpretação nunca é individual, o crédito sempre é coletivo, quando o trabalho desenvolvido é em equipe. Os intérpretes devem cooperar uns com os outros, pois o sucesso da interpretação vai depender da cumplicidade e parceria efetivada por eles. Os mesmos devem
compartilhar informações, manter diálogos abertos e trocas de experiência, fornecer materiais sobre interpretação e tradução, enfim compartilhar saberes e atuar em parceria para o melhor desempenho do ato interpretativo; afinal a palavra-chave do trabalho do intérprete é comunicação. Ambos dividirão os
bônus e os ônus pela tradução, trabalhando a quatro mãos. Eventualmente, um pegará carona nos elogios dirigidos ao outro, mas também amargará críticas por deslizes que não foram seus.

A Língua de Sinais requer o domínio de habilidades visuais, pois é uma língua de percepção essencialmente visual, ou seja, é expressa de forma espacial através das mãos, de expressão facial e corporal e captada visualmente. Este profissional, para realizar um bom trabalho de interpretação, necessita, também, do aprimoramento de outras competências tais como: memória auditiva, concentração, atenção, compreensão do tema ou assunto que é interpretado e reter as informações recebidas. Isto se faz necessário porque o intérprete tem o compromisso de interpretação das duas línguas envolvidas, ou seja, da língua oral para a Língua de Sinais, bem como da Língua de Sinais para a língua oral. É possível observar que esses profissionais desenvolvem as habilidades visuais ao se aproximarem linguisticamente das comunidades surdas.

Para finalizar, gostaríamos de enfatizar que com as discussões, críticas e reflexões a respeito da Língua de Sinais fica fácil perceber a importância do intérprete de Língua de Sinais e sua atuação. A figura do intérprete está presente desde tempos remotos e continuará por muitos séculos, até o dia em que a humanidade fale uma única língua, o que certamente está longe
de acontecer. Até lá, é preciso que o intérprete desempenhe sua função profissional, o seu ofício, com o máximo de segurança, consciência e responsabilidade.


REFERÊNCIA:

Estudos Surdos IV. Ronice Muller de Quadros e Marienne Rossi Stumpf (org). Petrópoles, Rj, Arara Azul, 2009.

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