domingo, 9 de agosto de 2015

CRIAR UMA LÍNGUA E VIVER NO MUNDO!



Miguel é do interior do Estado. Parte sul do Espírito Santo. Sua história remexe com algumas questões sobre os surdos colocadas pelos burocratas ouvintes. Sua história é um exemplo de resistência possível e as formas mais sutis de ela ser desvelada. Vou deixá-lo contar. É bem mais interessante a sua fala.

“Eu estudava numa escola com ouvintes. Brincava muito sozinho com as crianças, o que me deixava um pouco triste e isolado. A solidão me angustiava profundamente, afinal, as crianças ouvintes brincavam entre si e só se comunicavam apontando para mim. Eu deixava para lá. Brincava com meus brinquedos. Na época, eu estava na primeira série. Mas o que é primeira série? Como assim primeira série? Isso é só um exemplo. Eu não sabia do que se tratava. Perdido! Totalmente perdido!
Eu entrava na sala de aula, a professora mandava abrir o caderno e lá estava, um monte de letras e ela apontando para mim. Apontando para lá, para cá, articulando a boca e eu não compreendendo nada. Só sei que, de alguma forma, meu pai me mandava ir para escola. Era para lá que tinha que ir. Eu não entendia nada. Levava o misterioso caderno para casa e lá meu pai também apontava para cá, apontava para lá, articulando a boca. E eu continuava sem entender nada.
 Bom, algo novo estava por acontecer. Imagino que a professora chamou a diretora para conversar dizendo que eu estava só, que era surdo e estava sozinho. ‘Coitado!’ etc. Enfim, a diretora aceitou minha condição e, então, iniciou uma salinha de surdos lá na minha terra. Apontavam para lá, apontavam para cá, sempre articulando os lábios e lá estava eu, convencido a ir para essa nova sala.
 O grande dia chegou. Todo o material estava lá. Caixas novas embrulhadas, cheirando a novidade... O que será que tinha nas caixas? narrar e pensar as narrativas surdas capixabas Enfim, abertas, fiquei imaginando para que serviria tudo aquilo que meus olhos viam. Eram aparelhos de som, fones de ouvido, microfones. Para que isso? O que é isso? Senti medo... muito medo. Era tudo tão novo, tão cheiroso... mas tive medo! E aqueles botões?
Hoje sei que aqueles aparelhos trabalhavam o som. Mas som? Que som? Eu sou surdo! Eu ficava pensando numa lógica, mas aqueles amplificadores de som não me davam ainda o contato com as palavras.
Lembro-me de uma atividade que hoje me faz rir: a professora colocava o fone em mim, tampava a boca com um papel e dizia a palavra. Nossa! O que ela disse? O desespero já tinha tomado conta de mim...
 No quadro-negro, estavam as palavras do ditado. Era para eu apontar qual palavra ela tinha dito. Bom, levantei e fui lá no quadro e apontei para qualquer uma. Óbvio que eu sabia apontar bem. Era assim que as pessoas falavam comigo, apontando para lá, apontando para cá e articulando os lábios. Pois bem, voltando à atividade, apontei para qualquer palavra e torcia para acertar. Qual a minha surpresa que não tinha acertado? Morri de vergonha. Os meus outros amigos surdos, de medo.
Mas o legal nessa sala era isso: os amigos surdos. Eu brincava com eles. Não ficava mais sozinho. Quanto à atividade, a grande notícia era que não fui o único que errou. Todos os meus amigos foram ainda piores do que eu...
 E quando a professora, ainda na atividade do fone, danava a falar MATO e eu confundia com PATO? Mas o meu fiel amigo Hélio também confundia. Na verdade, nem ouvíamos para não confundir tanto.
 Tem um outro fato muito interessante que me lembro. Eu estava na sala fazendo uma atividade e pedi com os gestos a borracha pro meu amigo (antes eu tivesse apontado...). A professora viu o meu “vacilo” e na hora tratou de me corrigir: Fala BOR-RA-CHA. Eu morri de vergonha. Só que o mais legal é que fiz o que ela sugeriu e o meu colega não compreendeu nada do que eu queria. Então, na hora, respondi: ‘Viu? Ele não entendeu nada!’ Quando eu devolvi a borracha, a professora mandou que eu dissesse outra palavra. Eu não entendi nada da palavra que ela me disse para dizer. Simplesmente ela escreveu e mandou eu ler. Hoje eu sei que é a palavra “obrigado” Eu perguntei o que era, e ela me respondeu apontando para lá, apontando para cá e articulando os lábios. É tão mais simples fazer o sinal de obrigado... mas ela apontava, fazia gestos esquisitos e eu não compreendia nada. Isso me incomodava muito.
 Eu ficava espantado com a minha vida dupla. Saía da escola com meus amigos e falávamos em sinais. Olha que nem são os sinais de hoje, porque nem sabíamos que existiam. Nem sabíamos que se chamavam Libras e tal. Mas falávamos em sinais. E quando chegávamos na sala de aula, era com as mãos quietas e a boca fechada. Como assim? Que vida dupla levávamos? As nossas mãos tinham que ficar na mesa. Eu devia ter uns doze anos de idade nesta época.
Até acreditei que a professora poderia se acostumar, mas não. Ela não aceitou mesmo. O Hélio, meu amigão, estava lá comigo, nesta mesma empreitada, preocupado com o que estava para acontecer. Com medo também. Não podíamos conversar. Não posso esquecer também da minha amiga Marina10, que não sabia nada, como nós, e que até hoje está na primeira série. Ela, claro, abandonou a escola na época. narrar e pensar as narrativas surdas capixabas Depois de um tempo na sala da oralização, fomos para a sala de aula regular com os ouvintes. Nossa, não queríamos ir. Pelo menos eu e o Hélio ficaríamos na mesma sala. Era o que pensávamos, mas, para nossa surpresa, não ficamos. Quando percebi que nos separaram, fiquei chocado. Qual não foi a meu susto quando me vi na turma A e o Hélio na turma B. Tudo isso para não falarmos em sinais, eu sei. Tiveram a brilhante idéia de nos separar, de nos incluir aos ouvintes! Melhor forma mesmo de nos forçar a não falar em sinais.
Sinceramente sofremos muito. Mas tínhamos que sobreviver. O Hélio iniciou sua saga de reprovação na escola. Eu passava, porque dava a sorte de pegar professoras boazinhas que me davam cola. Mas claro que também já fiquei reprovado. Que surdo não ficaria reprovado? Desconheço este super-humano!
Bom, como eu já disse, se comunicar apontando para lá, apontando para cá e articulando a boca me incomodava muito. Éramos esquisitos, mexíamos as mãos de forma desordenada, um bando de crianças bagunçadas! Então eu imaginei o que poderia fazer para mudar isso, porque, pela primeira vez (afinal, nunca tinham mencionado isso para mim), vi na televisão um quadradinho com uma intérprete fazendo sinais. Pensei: ‘Ela não é tão bagunçada assim. Ela faz tudo direitinho’. Mas como não sabia os sinais que ela utilizava, deixei para lá. Ignorei. Chamei o Hélio e juntos começamos a criar. Pegamos as letras do alfabeto em Português e criamos gestos para todas elas. Tudo isso para nos comunicarmos de forma ordenada.
Chegamos na escola e logo passamos a ensinar todos os outros colegas surdos. Claro, longe da professora, que nunca teve acesso ao nosso código. Era a nossa forma de explicar as atividades. Por exemplo, virava para minha amiga e falava as respostas em  sinais: não é ‘A’ não. É ‘E’, por exemplo. Isso, lógico, sempre quando a professora saía da sala. Ela virava as costas e automaticamente nos ajudávamos.
 Um belo dia, estava eu indo para escola, quando, de repente, aconteceu uma virada nessa história toda. O nosso alfabeto já tinha dado certo. Já era assimilado e todos usávamos tranqüilamente. Mas, nesse dia, encontrei na rua um papel velho, meio rasgado. Parei para ver o que era e não entendi a princípio o que estava escrito. Li a palavra ‘surdo-mudo’ e fiquei curioso. Porém, quando virei o papel...
Que surpresa! Estava lá, no verso do papel, todo o alfabeto. Aquele que eu tinha criado, mas, não exatamente o que criei. Outro. Nossa! Andei pelas ruas, só olhando aquilo, aprendendo aqueles sinais novos que deveriam ser os certos. Tenho quase certeza de que algumas pessoas falavam comigo enquanto eu caminhava, mas além de eu não olhar, me aproveitando de minha surdez, não queria saber de mais nada além daquilo. Eu estava a caminho da escola e levaria aquela novidade a todos os meus amigos surdos. Existia sim algo oficial. Algo sistematizado. O que a gente criou não era o certo, mas, apesar disso, nos serviu por muito bom tempo! O mais legal é que me senti inteligente! Muitas daquelas letras eu havia criado de acordo com o que vi. Por exemplo: C, I, M, N, O, V. Mas eu as havia criado certo, como estava no papel. E daí fui comparando às outras que eu tinha, enfim... tudo perfeito!
O terrível foi convencer os meus amigos surdos a mudarem o que havíamos criado. Foi a parte mais chata desse processo. Alguns não aceitaram de jeito nenhum pelo fato de que já estavam acostumados ao nosso alfabeto. Mas eu insisti, dizendo que precisávamos aprender o certo, porque era assim em outros lugares. Se existia aquele papel, existiam outros surdos além de nós.
O mais triste de tudo foi que nosso grupo foi se desintegrando com o tempo. Cada um foi para seu canto. Cada um foi para uma escola de ouvintes. Aquele grupinho que andava junto, criava sinais, vivia à margem... cada um para um lado. Só eu e Hélio conseguimos continuar os estudos. Separados, mas unidos em outros momentos. Dávamos um jeito de nos encontrar.
 Eu aprendi sinais mesmo com 20 anos. Foi quando minha mãe me obrigou a trabalhar. Eu nem sabia que eu teria que trabalhar um dia. No meu emprego, encontrei alguns surdos. Eles falavam tão rápido com as mãos que eu ficava embasbacado. O que é isso que eles tanto falam? Logo trataram de me enturmar com eles e me ensinar Libras.
Disseram que não podia existir surdo no mundo que não soubesse a Língua de Sinais. O abecedário eu sabia. Mas o que eles faziam não era o abecedário. Era mais do que isso! Eram sinais que nomeavam coisas. Que coisa mais estranha!
 O chefe então mandou eles me auxiliarem, porque adivinhe como ele se comunicava comigo? Apontando para lá, apontando para cá, articulando os lábios... De novo não, pensei. Mas pelo menos ele teve essa sensibilidade. Então, meus novos amigos me ensinavam os sinais das coisas. Todos os sinais. Era muito interessante.
Depois encontrei na minha cidade uma mulher que sabia sinais. Aqui! Fiquei maluco atrás dela. E perguntei como ela tinha aprendido e ela me respondeu que havia aprendido com o marido dela, que era surdo. Meus olhos arregalaram. O quê? Um surdo mais velho? Nossa!!! Então comecei a conversar com ele. Claro que tive dificuldade, porque ele sabia sinais e eu não. Fiquei confuso demais. E pedi para ele me ensinar. Combinamos, então, aos sábados de nos encontrarmos. E todo sábado eu ia para casa deles para aprender sinais. E foi assim que aprendi sinais! O marco da minha vida aos 20 anos de idade”.


REFERÊNCIA
Estudos Surdos III / Ronice Müller de Quadros (organizadora). – Petrópolis,
RJ : Arara Azul, 2008.

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